Guiné-Bissau, Um retrato do país

 

 

 

Texto: Paulo Nuno Vicente

Fotografias: Cláudio Vítor Vaz

 

 

Futebol em Bissau

 

 

Estádio Simão Mendes, estádio de pó, em Bissau, capital do futebol em terra vermelha. Golooo!! A bola tem gestos desdobrados por cinco continentes, palavras originais, próprias, mas que todos reconhecem.

 

O treino dura até às 20h. Os corpos são ágeis. Pedem uma oportunidade para o remate. Há peritos em criar oportunidades, como magos, heróis.

 

O Futebol Clube de Bissau segue em 4.º lugar contra o adversário de próximo Sábado: Gabu. O treinador não dá descanso, tem por obrigação exigir mais, muscular.

 

Os pés da corrida cortam o pó, fintam, finalizam. Sonham viajar rumo à Europa, driblar nos campeonatos milionários, estádios de piso verde e bancadas repletas de nervos. Em Bissau, no Simão Mendes, a bola tem a forma da vontade.

 

 

Mercado Central de Bissau

 

Mercado Central de Bissau, gente por todos os poros. O negócio balança em dia de Carnaval. Mamadu Conte implora por uma compra. Quer acompanhar a festa das máscaras. Hoje ainda ninguém comprou uma única peça.

 

“Leva… hoje é Carnaval. Não tenho dinheiro para a festa”

Mamadu vende artesanato tradicional: estatuetas em pau de sândalo, miniaturas de bombolom, colares de búzios, espadas fula…

 

Como pano de fundo, o batuque de Mamadu Baio. Os dedos do jovem bailam na pele do tambor. Pertence ao grupo Supere Camarimba, artistas jovens de Tobato, e é especialista em instrumentos de percussão, como se ouve.

 

Papaias, mangas, anonas, mancarra, caju. Um arco-íris de fruta pronta-a-levar. As bancas confundem-se com o chão, desfilam as vendedoras habituais que conhecem o cliente pelo nome. E chamam, e chamam. O pregão tem forma física, suada. Quem passa é puxado para a compra, literalmente agarrado.

 

O mercado vai esmorecendo com o adiantar do pôr-do-sol. Sobram os vendedores de tabaco: na compra de um pacote (10 maços), oferta de um isqueiro com Bin Laden estampado. Bissau tem marketing próprio.

 

 

Mercado de Bandim

 

Diaga Féon garante que a vaca teve morte às sete horas da manhã, que foi logo trazida – às postas vermelhas de sangue – do matadouro de Bissau para o Mercado de Bandim. Não desvenda como. Adianta apenas que chegou dentro de um carro: “Via terrestre”, desenha com a mão o movimento de um automóvel.

 

O Mercado de Bandim desdobra-se em centenas de metros de venda a céu aberto. Diaga afasta as moscas dos nacos de carne de vaca. Nasceu em Dakar (Senegal), vende carne desde pequeno, está há seis anos no Bandim. “Um kg vale 1750 francos CFA. O negócio tem poucos clientes, mas vendo meia vaca num dia”, garante.

 

À semelhança de Diaga, também Nhanome negoceia a sobrevivência no Bandim. Troca farinha de farelo por dinheiro vivo. “Com licença! Com licença! Com licença!”, corre o canto apressado de quem quer vender. Com ou sem licença, o carrinho-de-mão passa. “Cliente ka tem”, esboça Nhanome em crioulo. É sinónimo de pouca procura.

 

A geografia da venda é um emaranhado de travessas de terra, calor tórrido e gente que se acotovela. Encontra-se de tudo: arroz em sacos, sabão artesanal, manuais escolares, mancarra (amendoim) e medicamentos avulsos. O mercado não possui saneamento básico. A água escorre pelo chão e deixa o ar fétido à hora de almoço.

 

Para calar a insónia da fome, Aissatu Djaló, 20 anos, cozinha caldo de chabéu e de mancarra. O vapor voa das marmitas, sobe e desaparece. Cada prato tem preço certo: 500 francos CFA. Aissatu vende no Bandim há 12 anos. “Ajudo a minha mãe. Ela precisa”.

 

 

A religião do negócio

 

O muezin faz o apelo. Mohamed Diallo pára. Boca, mãos, pés lavados. Alá ordena que o comércio pare às duas da tarde, o comércio muçulmano pára. Mohamed descalça-se e ajoelha-se, corpo inclinado para Meca, na Mesquita do Bandim.

 

“O Islão é mais democrático que a democracia ocidental. No Ocidente, os homens são diferentes perante a lei. No Islão, todos os homens são iguais perante Alá, não existem hierarquias”, apregoa Mohamed que, à margem da mesquita, lecciona francês e árabe.

 

Os caminhos são estreitos, por esse motivo andar no maior mercado de Bissau é um exercício de paciência. As explicações de Mohamed cruzam-se com um ruído de fundo. É o roncar do gerador que anima a máquina de costura de Domingos Keita. “Faço vestidos e fatos. Para todos: mulheres, homens, crianças. É só pedir por medida”, publicita: 2000 francos CFA por cada encomenda de vestido.

 

Paredes-meias com Domingos, um Salon de Coiffure: cortes de cabelo à medida do gosto e do estilo. A animar as tesouras, o bombolom [instrumento típico de percussão construído em madeira] de Joãozinho Cá.

 

O toque sinaliza a morte de um homem grande: há vida e morte para troca no Bandim.

 

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Hospital Nacional Simão Mendes

 

Nala trepou à árvore para apanhar fruta, mas os ramos não resistiram. O peso do corpo vergou os galhos. Nala tombou. A queda paralisou-lhe o corpo aos 20 anos de idade e empurrou o jovem para uma cama do Hospital Nacional Simão Mendes. O episódio passou-se há dias atrás, em pleno Carnaval guineense.

 

É hora de almoço. Sida Dunda, a mãe de 40 anos, sentada à beira da cama, destapa a marmita de plástico. Nala encontra-se na Sala de Observação: janelas abertas, um calor sufocante, estuque a cair aos pedaços, quatro camas ocupadas por outros tantos corpos. Por cada paciente, um familiar ou amigo acompanhante. Não existem enfermeiros suficientes. A mão de Sida leva uma colher de comida até à boca de Nala, que mastiga lenta e ruidosamente, prostrado de barriga para baixo. A mão materna repousa. A mão esquerda do filho – tal como os pés – são uma ferida aberta, estão em carne viva.

 

Nala foi um dos 313 casos de socorro atendidos de urgência, durante a época de Carnaval, no Hospital Nacional Simão Mendes. O jovem foi trazido de táxi. O hospital possui uma única ambulância de serviço, que deve servir os cerca de 300 mil habitantes de Bissau. À outra viatura existente faltam o radiador e o vidro dianteiro, roubado: motivos por que se encontra estacionada à sombra de uma mangueira, à espera de dinheiro para o conserto – seria uma espécie de milagre – ou de uma dádiva voluntária.

 

 

Os guineenses não têm o privilégio de chorar

 

“A maioria dos guineenses não tem o privilégio de chorar. Este povo não respira! Estamos na independência mas não somos independentes”. Palavras ruidosas e amarguradas de Johannes Mooij, Assistente Administrativo Hospital.

 

Nascido na Holanda, Johannes trabalhou 23 anos no Brasil. Está há cerca de 6 anos na Guiné-Bissau. Habituou-se a ver a morte passar-lhe pelos braços. Separou cadáveres – “mulheres para um lado, homens para outro, crianças para outro” – quando, em 1998, um morteiro caiu na Missão Católica de Bissau e 50 pessoas morreram. “A partir daí tenho um grupo, uma espécie de família, a quem chamamos o grupo de guerra. Durante a guerra de 1998, estive 8 dias sem dormir, a tratar dos cadáveres e dos sobreviventes. Aguentei a beber [chá de] warga”.

 

Johannes está encarregado de organizar as estatísticas hospitalares referentes ao período de Carnaval. “Temos agora o problema da SIDA: não adianta darem-nos medicamente se não houver continuidade na ajuda! Eu preciso de uma farmácia ou laboratório para fazer os nossos medicamentos. Não adianta darem-nos arroz quando temos um exército sentado de rapazinhos que ficam no quartel a andar de um lado para o outro. Não nos dêem sacos de arroz! Dêem-nos sementes e ensinem-nos a semear!”.

 

O Hospital Nacional Simão Mendes é um exemplo desesperado de um país à beira da sobrevivência. “Na hora em que as ONG’s [Organizações Não-Governamentais] forem embora do país, eu garanto, francamente, vamos morrer todos de fome! Habituaram este país a sentar-se e pedir e não a trabalhar. A nossa terra é rica!”.

 

 

Um part-time na maternidade

 

As paredes da sala da maternidade do Simão Mendes não aparentam as dificuldades passadas até há poucos meses atrás. “ Até aí, era um pano que servia de porta na sala de partos, não havia electricidade, os bebés nasciam à luz da vela”, explica Johannes. As salas foram recentemente reabilitadas com o apoio do Banco da África Ocidental e da petrolífera Premier Oil: há climatização e electricidade conseguida através do gerador do hospital. Em média, na maternidade nascem diariamente vinte e cinco crianças.

 

Arnaldo Pires Cá, 28 anos, é um dos sete elementos que constituem a equipa de segurança da maternidade. Estuda e ajuda os estudos com o emprego em part-time na Maternidade do Hospital Nacional Simão Mendes. Cursa o 1.º ano de Administração Pública e Economia Social na Universidade Colinas do Boé. “A minha intenção era tirar o curso de pilotagem, mas por infelicidade…”.

 

A universidade fica reservada ao período da manhã. O serviço da maternidade inicia-se às 15h, trabalha-se por turnos de oito horas. A função de Arnaldo é receber os medicamentos que são trazidos pelos familiares dos pacientes. Trata de os fazer chegar a quem necessita. Apenas no escuro da noite tem tempo para os estudos. “Estudo à luz das velas. Não há livros. Mesmo que me sacrificasse com todo o dinheiro que tenho, não teria o suficiente para os livros. Desisti de os procurar”.

 

Arnaldo deposita esperanças cuidadosas nas Eleições Presidenciais que se realizam, ainda sem data estipulada, nos próximos meses. “Tendo em conta a carência que o país atravessa, temos de nos sacrificar. Há uma enorme camada de desempregados entre os jovens guineenses. É preciso mudar de vez. Estas eleições devem ser diferentes das anteriores, em vez de embarcarmos cegamente”.

 

- Já aconteceu Arnaldo?

- Várias vezes…

 

 

Gabu

 

O tamanho de Gabu pode medir-se em gente. Em gente que vende nas ruas, amontoada em bancas rasteiras e prontas a apregoar. Gabu é uma encruzilhada de nacionalidades dedicadas ao negócio. Chegam da Guiné-Conacri, do Senegal e da Gambia. Trazem o warga [chá], a roupa, as especiarias, os legumes, a vontade de fazer dinheiro a todo o custo.

A perseguição à clientela é feita até à exaustão. Utilizam-se métodos improvisados: vale a correria atrás do branco pelele [branco de pele] e o megafone com frases repetidas tarde adentro:

 

Warga! Warga! 25, 25, 50, 50!

Warga! Warga! 25, 25, 50, 50!

 

Warga! Warga! 25, 25, 50, 50!

Warga! Warga! 25, 25, 50, 50!

 

E os bois misturam-se com a gente, num atropelo. As crianças passam empoleiradas em carroças de burros. São, de resto, o transporte adequado ao terreno: a avenida que corta Gabu é feita de crateras dentro de crateras.

 

E em Gabu a noite é mais escura que na capital Bissau. Poucos bairros têm a luz eléctrica que sai do trovejar dos geradores.

Da colonial Nova Lamego pouco resta.

 

Soma-se a inexistência de saneamento básico: pelas ruas – plenas de lixo – navega um cheiro a fossa sanitária e a podre. Os cães têm sarna, coçam-se insistentemente, as orelhas em sangue, as moscas coladas. Na época das chuvas, Gabu é o paraíso da malária.

 

 

Rádio Sintchan Ôcco

 

Desconfiaram de Samba Sô, apresentaram queixa no tribunal, quiseram prendê-lo. O administrador-delegado do CEFID [Centro de Estudos de Formação e Informação para o Desenvolvimento] queria apenas fundar uma rádio em Gabu. Para tal, havia-lhe sido pedido que recolhesse assinaturas dos populares, num abaixo-assinado que demonstrasse a vontade de ali instalar uma emissora.

 

Samba cumpriu. Recolheu, pelas ruas de Gabu, 1125 assinaturas. Dois meses depois, o emissor tardava em chegar:

 

“A mulher do patrão estava na Alemanha e estava encarregue de comprar o emissor, que nunca mais chegava. O povo de Gabu confundiu as intenções e pensou que eu quisesse formar um partido político. É lógico, queriam saber o que era feito das assinaturas com os números de bilhete de identidade.

 

Liguei para o patrão. Expliquei a situação e disse

Olhe que o povo pensa que formou um partido político em Bissau e que eu sou o seu delegado. Querem prender-me.

 

Pouco tempo depois, nasceria a Rádio Sintchan Ôcco. O emissor vindo da Europa evitava males maiores para Samba Sô. Instalava-se a primeira e única rádio comunitária na região de Gabu, em 30 anos de independência:

 

“ A emissão inaugural foi a 28 de Novembro de 2001. Na altura, as emissões da Rádio Difusão Nacional não cobriam todo o território. Gabu fica isolada informativamente. Agora, informação chega nas línguas locais: fula, mandinga, crioulo e português”.

 

Gabu é uma região de cruzamento de negócios entre a Guiné-Conacri, a Gâmbia e o Senegal. A Sintchan Ôcco não se limita a retransmitir os noticiários das rádios internacionais, embora também o faça por falta de recursos humanos.

 

“Somos cerca de 30 pessoas, mas apenas 12 recebem ordenado ao fim do mês. Os restantes são voluntários. Só temos uma pessoa formada em Jornalismo. Os restantes são professores que convidamos”.

Por duas vezes o emissor avariou-se, tendo de ser levado a Portugal. As dificuldades apertam:

 

“Não temos microfones e os gravadores de reportagem não chegam. Estamos numa casa alugada, pagamos renda mensal e, ao fim do mês, quase não sobra dinheiro”.

 

A Sintchan Ôcco sobrevive dos projectos de financiamento desenvolvidos pela CEFID, que estabelece acordos de parceria com organismos internacionais.

 

A mesma população que, há cerca de 4 anos, ameaçou prender Samba Sô, hoje reconhece o papel da rádio na luta contra o isolamento informativo de Gabu. Chega até a pagar pela difusão de comunicados.

 

 

Unidade Escolar 25 de Abril (Gabu)

 

Ensa Mandjam, 33 anos, vai explicar a Língua Portuguesa, a Matemática e as Ciências Naturais. A 1.ª classe vai escutar. Antes, cumprimenta a chegada de quem ensina, em jeito de coro afinado: “Boa tarde senhor professor! Como está?”.

 

A sala de aula enche-se com os alunos mais novos, entre os seis e os oito anos de idade, de caderno em riste. Musa Bandjai, 6 anos de idade, aprendeu a lição, já sabe escrever, o caderno comprova:

 

Mala, Mão, Mel

Lua, Mota, Cama,

Mesa, Sol, Ramo

 

A Unidade Escolar 25 de Abril existe há cerca de oito anos e, desde então, viu o número de alunos diminuir para metade. “Não tínhamos capacidade para receber tantos alunos, não havia espaço. E acontece que há muitas desistências depois dos dois períodos escolares, por falta de livros e de dinheiro. Também, na época das chuvas, a nossa sala da 3.ª classe não pode ser utilizada. A água entra por todos os cantos”, explica o administrador Suleimane Seidi, 23 anos.

 

A escola 25 de Abril tem estatuto privado, funciona em regime de autogestão, o que significa que a frequência das aulas depende do pagamento de uma taxa de propina mensal que evolui consoante o grau de ensino. O valor aumenta 1000 francos CFA por ano escolar: de 3.500 francos CFA mensais, para os alunos da 1.ª à 4.ª classe, a quantia sobe até aos 7.500 francos CFA no 10.º e 11.º ano de escolaridade

Os professores acumulam funções, dando também aulas no sector público. É o caso de Marcelino Vaz, professor que relata o porquê do nome da escola. “O pai do actual proprietário [José Carlos Monteiro] era português e estava na Guiné-Bissau. O Zé Carlos não conheceu o pai, que faleceu durante a Guerra Colonial. Por isso, decidiu baptizar a escola com o nome da revolução”.

 

A maior parte dos livros que chegam à escola são doados pela UNICEF. “A Editora Escolar (Bissau), que facultava os livros à escola, foi destruída pela guerra de 1998. Até ao momento não foi recuperada”, explica Suleimane. E assim, os livros passam de mão em mão.

 

 

Liceu Agostinho Neto (Bissau)

 

O professor Express pede silêncio. Vai ensinar com a voz do conto. A sala de aula aguarda curiosa. O professor lê, recita termo por termo. É tempo de explicar, com as palavras da literatura oral, em língua portuguesa, a importância da fidelidade numa relação amorosa. Os alunos riem. O professor exercita a paciência.

 

Express sabe que não é fácil prosseguir estudos na Guiné-Bissau. Tem encontrado, ao longo da carreira, casos desesperados:

 

 “As pessoas saem do interior para vir estudar em Bissau. Só na capital é que existem grandes liceus. O problema é que as famílias não têm meios. Vivem das hortas. As crianças comem uma vez por dia, é impossível concentrarem-se sem nada no estômago”.

 

Morrido Cá, presidente da Associação de Estudantes do Liceu Agostinho Neto e membro da Confederação Nacional de Associações Estudantis da Guiné-Bissau acrescenta ao diagnóstico a escassez de infra-estruturas:

 

“A lotação normal para as salas que temos devia ser, no máximo, de 30 alunos. Aqui temos, amontoados só nesta sala, cerca de…

34, 36, 38, 40…

 

Quarenta e dois alunos! Quatro em cada secretária... Os nossos governantes deviam apostar no nosso sector educativo. Com tantas dificuldades, não conseguimos fazer nada”.

 

 

Universidade Amílcar Cabral (Bissau)

 

“Quem vem aqui ou faz política ou se tem meios faz um business. Temos de captar os quadros intelectuais da diáspora e parar a fuga de cérebros guineenses para o estrangeiro. Há uma mudança de mentalidade para operar”

 

Palavras de Tcherno Djaló, reitor da Universidade Amílcar Cabral (Bissau), em tom sereno, pausado, confiante. Amílcar Cabral parece escutar, emoldurado na parede.

 

A Universidade Amílcar Cabral abriu portas em 1999:

 

“ Adoptámos uma filosofia de contarmos com os nossos próprios recursos. Não podemos estar à espera que o financiamento venha do exterior. Evitámos a armadilha de aparecer com um modelo universitário retirado de países estrangeiros, a realidade não é a mesma”.

 

Governo da Guiné-Bissau e Universidade Lusófona (Portugal) criaram uma entidade gestora da universidade, de modo a funcione em regime público, mas com uma gestão autónoma:

“Para evitar a ingerência da política na ordem académica”

 

Os desafios são constantes e enraizados:

 

“Um dos principais obstáculos é a falta de confiança dos guineenses, que é o reflexo dos fracassos sucessivos desde a independência. Ninguém acreditava que seria possível criar uma universidade logo após um conflito”

 

A frequência do ensino superior depende do pagamento de propinas:

 

“Os alunos pagam 15.000 francos CFA mensais (cerca de 22 euros), o que pode parecer ridículo noutros países, mas aqui é um fardo para a maioria das famílias, que é carenciada. Mas acordou-se um princípio: a formação custa. E temos de terminar a mentalidade de mão estendida”

 

A Universidade Amílcar Cabral dispõe de 12 cursos em funcionamento - Administração e Gestão de Empresas, Arquitectura, Serviço Social, Jornalismo e Comunicação Organizacional, Direito, Economia, Enfermagem Superior, Engenharia Informática, Gestão de Recursos Humanos, Medicina, Ciências da Educação e Sociologia – e tem uma ambição própria:

 

“Estar na ponta da inovação e começar a repensar este país, formar uma elite real. A Guiné-Bissau tem apostado na formação dos seus quadros no estrangeiro: Mongólia, Turquia, Rússia, América, Roménia.

 

Pode ser enriquecedor, mas também cria um problema de falta de homogeneidade e dificuldades de síntese. As pessoas vêm com outras referências e é preciso criar um denominador comum”.

 

 

Bijagós

 

Porto Bandim, porto de canoas e travessias adiadas, é a porta de oceano para o Arquipélago de Bijagós. A passagem marítima é feita a bordo de canoas e pirogas, lanchas rápidas ou na companhia dos pescadores que levam e trazem peixe das ilhas. O bilhete não tem preço fixo. Pode oscilar entre 20.000 francos CFA por uma lancha rápida e 2.000 francos CFA por uma travessia a bordo de uma canoa: dificilmente segura, cabras e galinhas a bordo, a transbordar de gente como só em África pode.

 

A canoa sai, é irreversível, três horas e meia depois da hora suposta. Porto Bandim (Bissau) vai restando para trás, aos poucos e poucos metros de avanço. Até que pára, subitamente: esqueceram-se de fazer embarcar o capitão…

 

“Ninguém manda nesta terra, esta terra é que manda na gente”.

 

Palavras avisadas de Alberto Prieto de Paula, fotojornalista do diário espanhol Tribuna de Salamanca, também a bordo da cahuna.

 

A viagem rumo a Bubaque, ilha dos Bijagós, vai durar sete eternas horas. Zeca Lopes Moreno, professor, aposta e dá sinal em contrário:

 

“Portanto, são duas da tarde… Lá para as seis chegamos”

 

Os passageiros riem da aposta:

 - “Zeca tempasensa… Chegamos à noite, lá para às sete!”

 

- “Lá para às sete não. Já passámos o farol Pedro Alves… Lá para as seis e muito”

 

É arriscada a vida nas ilhas. Não há nenhum transporte fiável para os Bijagós. Daí que o ensino – alunos e professores – sofra do isolamento, que aumenta na estação das chuvas.

 

Sidi Mancale, professor, desempenha a função de Delegado Regional de Educação em Bubaque:

 

“É complicada a viagem, e arriscada. Se um professor tem de ir a Bissau, os alunos ficam automaticamente sem uma semana de aulas. Não me lembro de algum dia ter sido cumprido o programa escolar para o ano lectivo. O Governo cortou o subsídio de isolamento. Os salários não chegam ou chegam em atraso”.

 

O director-geral do Turismo, Francisco Costa, conhece a situação.

 

“Não há uma ligação de segurança. Directamente não temos nenhum tipo de controlo directo sobre as embarcações, mas colaboramos com a Capitania dos Portos na fiscalização das canoas.

 

Não temos controlo sobre o número de pessoas que vão numa canoa e em que condições vão”.

 

A partir do conflito militar de 1998, o sector turístico na Guiné-Bissau teve quebras gigantescas:

 

“É lógico que quando um país não tem estabilidade política, as pessoas não confiam. E se não confiam, não conseguimos absorver investimento estrangeiro. O turismo pode ser uma arma contra a pobreza e a favor do desenvolvimento. Temos muitas dificuldades de infra-estruturas e de leis que entravam o nosso trabalho. A legislação ainda é a da época colonial, precisa de ser revista”.

 

 

Ex-combatentes

Iemberem

 

A Cédula Militar faz questão de sublinhar, a vermelho-sangue: João Mamadu Seidi, Raça Fula:

 

25 de Dezembro de 1948 – Desembarque no Porto de Bolama (Bijagós)

1 de Janeiro de 1949 – Travessia marítima entre Cabo-Verde e Canárias

28 de Junho de 1951 – Embarque em Macau rumo à Guiné-Bissau

4 de Agosto de 1951 – Desembarque no Porto de Luanda (alojamento e alimentação)

21 de Agosto de 1951 – Desembarque no Porto de Bissau

 

Nem todas as datas foram gravadas no papel. Algumas apenas. As outras estão retidas na memória. Ao longo de 22 anos ao serviço do Exército Português, João Mamadu Seidi pisou o chão dos portos de Angola, Moçambique, Macau, Índia e Timor. Em Iemberem, foi guarda administrativo de 1952 a 1974, “ano em que tudo acabou”. Era o responsável pelo “serviço de estrada: cobrava os impostos e tratava da vigilância da aldeia”.

 

Hoje descansa à sombra da casa de colmo e palha, fuma Burrus&Sons importados. Lê e ensina apoiado nas amlual, as tabuinhas de madeira onde estão gravados excertos do Corão. Mostra às crianças as palavras de Alá.

 

Há dias, a doença tomou-lhe o corpo: “Estava a desmatar e apanhei uma paulada”. João Mamadu Seidi nunca recebeu qualquer tipo de pensão do Exército Português. Foram 22 anos de prestação militar. Sobrevive do apoio dos filhos que vivem em Bissau.

 

Sene Candé esteve em 9 de Agosto de 1969 em Lisboa: ferido de guerra, evacuado da Guiné-Bissau. Perdeu a mão direita para uma mina terrestre. Ferido no aquartelamento de Bidanda, em missão da Companhia CAÇA 26.

 

“Ainda hoje há muito material de guerra espalhado no sul do país, há muita mina espalhada por onde passaram os guerrilheiros”.

 

Entrou para as fileiras militares no dia 1 de Agosto de 1965. Teve três louvores de guerra:

 

“Desse tempo não tenho nada, mas sempre recordo: 6 de Novembro de 1973, capturei duas armas; 30 de Março de 1974, na última missão no Sul, capturei também duas armas”. Sene regressou de Portugal de 1970:

 

“Aterrei no Aeroporto Craveiro Lopes às 9 da manhã do dia 15 Janeiro de 1970. Agora o aeroporto chama-se Osvaldo Vieira. É assim que as coisas viram”

Sene Candé nasceu a 10 de Fevereiro de 1947, Iemberem.

 

“Em Lisboa, se você tem taco [esfrega polegar e indicador, como quem diz dinheiro], faz tudo o que quer de 25 de Dezembro a 1 de Janeiro”.

 

Sene quer postal. Postal é fotografia para recordação.

 

“Quando for revelada, vou dizer: Estive com este homem bom em minha casa. Quero voltar a Lisboa. Conheci muitos Capitães, majores e coronéis: Bettencourt, Fabião, Costa Gomes. Conheci de perto o General Costa Gomes”.

 

 

Ex-combatentes

Báfata

 

Saico Baldé, nascido a 8 de Outubro de 1946. Quartel em Canquelifá, 7 de Abril de 1967. Unidade: Companhia Caç. N. 1623.

“Dezasseis-Vinte-e-três”, frisa.

 

“Como eu sabia escrever português e fula, não fiz operações no mato. O capitão disse-me Saico, fica sempre com o 1.º sargento na secretaria para ajudar.

 

O capitão chamava-se Capitão Cascais. A companhia dele não teve nenhum morto durante toda a guerra”.

 

Os documentos militares estão à mão. Está tudo arrumado na mala. Pronto para partir para Portugal, um dia:

 

“Na altura dos portugueses, estava bom, melhor do que agora. Antes, os filhos da Guiné não saíam para o estrangeiro. Tudo estava aí ao pé.

 

Depois de 14 de Novembro, Guiné logo ficou merda.

Tudo ficou estragado, até então.

Eu se tivesse meios ia.

Porquê?

Eu sou português.

Onde nasceu?

Nasci em Bafatá.

Até hoje, Saico Balde espera pela pensão de ex-combatente do Exército Português:

“Estou a espera. Tenho um documento que diz que tenho direito, mas ainda não recebi nada”.

 

 

Iemberem

 

O despertar de Iemberem desdobra a Guiné-Bissau em existências várias, distintas. Serve de prova em como o país interior-sul é outro, oposto da capital.

 

A manhã acorda com o chilrear das aves deslumbradas, o canto do galo e a transparência de um céu filtrado por centenas de árvores, de onde voam – de galho em galho – os macacos destemidos.

 

Iemberem é – simultaneamente e sem oposições – uma aldeia minúscula, de colmo e palha, e um mato profundo, parte do Parque Natural de Cantanhez.

 

Os abutres passam a rasar a terra vermelha dos termiteiros [baga-baga], estacionam nos ramos e espiam destemidos. Iemberem tem cheiro próprio: um odor de terra madura, centenária.

 

O mato de Cantanhez mostra razões próprias para se conservar quase intacto, entre o atlântico mar e o emaranhado da selva.

 

Aladje Braima Galissa, 14 filhos, é o único habitante de Iemberem de etnia tanda que já fez a peregrinação a Meca. Daí a designação aladje. Não se recorda da idade que tem: “Noventa e tal, mas penso que nasci em 1919. Naquela altura o registo era difícil”

 

Chegou a Iemberem quando tudo ainda era mato cerrado. Chegou a pé desde a Guiné-Conacri, depois de piroga até Iemberem. Vieram 20 pessoas, os primeiros tandas na Guiné-Bissau.

 

Iemberem tem fruta o ano inteiro: banana-maçã, mangas [contam-se cerca de 17 espécies diferentes!], chabéu. E arroz, com fartura. Abubacar Serra, coordenador da Acção para o Desenvolvimento (ONG), desfaz equívocos:

 

“As pessoas, lá na Europa, pensam que passamos fome de morte. Aqui não. Em Iemberem, há muita fartura. A comunidade está organizada de maneira que todos comem o que todos semeiam”.

 

Nhô-Nhô semeou uma associação. Chamou Raça Banana a esse grupo de 95 mulheres e 4 homens.

 

“Raça Banana porque é como a bananeira. Não morre. Quando uma parte da árvore está a morrer, outras partes já nascem e dão frutos novos”.

 

A associação nasceu em 1989. Desde então decidiram aplicar um sistema de cotas – 400 francos CFA por mês – de modo a poderem aplicar o dinheiro nos projectos Raça Banana.

 

As mulheres dividem-se por grupos de interesse: tinturaria, produção de sabão e de compotas, banco de cereais. Outras encarregam-se de revender os produtos ou de cuidar da casa de hóspedes.

 

Nhô-Nhô significa lixo. Não é pejorativo, mas um pedido de protecção divina: para que espante a má sorte na gravidez. A mãe de Nhô-Nhô deu à luz seis nados-mortos. Nhô-Nhô foi a primeira a nascer viva. Hoje, também é mãe.

Binta, Mariama, Fatu, Adama

Quatro filhas

Idrissa, Sana, Bacar

Três filhos

 

O régulo de Cadique passa a mesma dificuldade de memória. Aladje Salifo Camará é casado com quatro mulheres:

Maria Sambu

Aissata Keita

Ai Camará

Mariama

 

O número de filhos é uma contabilidade de esforço.

“Sete fidju-macho, seis fidju-fêmea”

Sete não. O régulo corrige para dez.

 

Aladje Salifo Camará, de etnia nalu, nasceu para os registos oficiais em 1920, mas o parto deu-se três anos antes. Descende de uma família real cujo primeiro regulado teve início em 1819, exerce funções de régulo desde 1992.

 

”A função do régulo é unir a gente, disciplinar, pôr a trabalhar e ser um intermediário do governo. Na altura dos portugueses, quando a pessoa não respeitava a autoridade do régulo, era levada ao chefe de posto, hoje chama-se Administração Sectorial. Agora há a democracia”

 

Bafatá

 

Cabral ka muri, é poilão que empresta sombra a todos os guineenses. Bafatá guarda descuidada a memória do nascimento do fundador do PAIGC, dito pai da nação guineense independente.

 

Está de pé – conservada porque fechada – a morada onde nasceu, com uma cor que só poderia ser branca: longe do assassinato de 20 de Janeiro de 1973,em Conacri, com a inocência da infância de um país e a dormência de uma história nacional sulcada por guerras e golpes militares. As portadas das janelas estão corridas, cerradas como os olhos da memória.

 

“Cubanos e soviéticos deram financiamento para que se construísse uma casa-museu, mas ninguém sabe onde é que está o dinheiro…”.

 

Num bolso sempre à mão, nas calças puídas, Saico Baldé conserva os cartões que lhe garantem a identidade e as recordações de antigo militar guineense contra os guerrilheiros de Amílcar Cabral.

 “Guineenses lutaram contra guineenses. É a guerra.”

 

Saico descansa à sombra, fuma muito, o que não é hábito nos guineenses.

 

Célia Dinis, natural do concelho de Caldas da Rainha, veio para a Guiné-Bissau em 1972, com 18 anos.

“Casei com o meu marido em Portugal e depois viemos para cá. Não ia ficar sozinha em Portugal, não é?”

 

Dois anos depois da chegada, no ano da revolução portuguesa, abriu o restaurante-bar Ponto de Encontro. Já não sabe se é mais portuguesa ou guineense.

 

“Eles [guineenses] dizem que somos os filhos da Guiné-Bissau”.

 

 

Bairro Missira (Bissau)

 

Bairro Missira, periferia de Bissau. O inferno da sobrevivência desceu em África. O bairro espalha-se por centenas de metros de lixo a céu aberto. Bairro de moscas, chão de terra vermelha e carcaças enferrujadas do que foram automóveis, deixadas ao sol tórrido.

 

Salim aguarda o amigo Mário. Juntos costumam catar a sobrevivência, mergulhados no esterco, procurar algo para vender no Mercado de Bandim. No Missira, tudo é fétido e podre. Mergulhado no lixo, Salim – nascido na Guiné-Conacri – cata o alumínio das latas de refrigerantes que alguém terá bebido: 1kg de alumínio equivale a 100 francos CFA ganhos (cerca de 12 cêntimos de euro). Por vezes, socorre-se fundindo o alumínio, fazendo marmitas, vendendo.

 

Hoje, Mário não vem. “Deve ter ficado em casa. Ou foi vender ao Bandim”, explica Salim em francês. Hoje cata sozinho: 1kg de alumínio equivale a dezenas de latas, a muito lixo e esterco esgravatados, a muito risco de doença, para ganhar 100 francos CFA, o preço de um pão em Bissau; uma garrafa de água – a única que oferece garantias de poder ser bebida sem riscos de doença – custa dez vezes mais (1000 francos CFA). Mais barata, apenas a que escorre das torneiras públicas ou a que é vendida em saquinhos de plástico na berma da estrada: essa, ninguém sabe de onde vem e o mais certo é estar contaminada.

Cercado por abutres, por ratos e ratazanas e por perigos que não se vêem, Salim não está sozinho. Quatro silhuetas fazem arder montículos de lixo e mato. Duas mulheres, mães, e dois filhos sentados entre estilhaços de vidro. Incendeiam pequenos montes de lixo de modo a apenas restar o brilho enferrujado das latas de alumínio. Tudo o resto arde.

 

Procuram também garrafas de vidro intactas e sacos de sarrapilheira. No Bandim, “um saco com vinte e cinco garrafas vale 100 francos CFA”, contabiliza Salim.

 

No índice de desenvolvimento humano, a Guiné-Bissau ocupa o 86.º lugar. A esperança média de vida é, à nascença, de 45 anos. A probabilidade de não se sobreviver até aos 40 anos de idade é de 41,3%. Tal como Salim, 44% da população guineense não tem um acesso sustentado a água potável.

 

 

Carnaval

 

Um oceano de guineenses faz transbordar as principais ruas de Bissau. Atropela-se em plena Avenida Amílcar Cabral. A avenida não chega, parece que encolhe, engolida por centenas de pessoas.

 

O ar desaparece no meio de tanto e tão grosso pó, vermelho e granulado. Torna-se difícil respirar.

 

Os pés da multidão cedem ao batuque. Alucinam e gemem. Bissau é por estes dias cor, folia e correria descontrolada. Há quatro dias que a capital guineense vê passar o Carnaval.

 

Quatro dias para fingir ser outra, uma cidade diferente da que é: capital de um dos dez países mais pobres à face do globo, encaixada no puzzle das nações da África atlântica.

 

Nos caixotes de rua, há quem esgravate a sobrevivência a céu aberto, cercado pelo lixo. Os serviços essenciais estão encerrados: correios e mercearias apenas de manhã estão abertos.

 

O Mercado Central de Bissau fecha às 15 horas. Encontram-se abertos apenas os estabelecimentos comerciais que pertencem a coreanos e muçulmanos: os primeiros, pela oportunidade do lucro; os segundos, por imperativos religiosos.

 

Até ao prémio final, o tema carnavalesco é o da “Diversidade Cultural num Mundo Globalizado”.

 

Assim repetem as t-shirts e as faixas publicitárias penduradas na Praça dos Heróis da Nação. Elege-se uma rainha da globalização.

 

Desfilam as associações e as escolas, as danças e os assobios. O júri avalia. Este ano o primeiro lugar foi atribuído aos Manjacos, de Cacheu (uma das cerca de 23 etnias espalhadas pelo território nacional).

 

Nos escombros do Palácio Presidencial, a festa acontece nas varandas sobreviventes aos tiros e obuses que, em 1998, empurraram João "Nino" Vieira para o exílio político. Na rua, a Policia de Ordem Pública tranquiliza os ânimos agitados à bastonada. Há futebol: bolas, fintas, quedas e dezenas de camisas das selecções portuguesa, brasileira e francesa.

 

As crianças cantam, correm e pulam, agarradas a demónios de dentes agudos, gigantes e assustadores: máscaras de papel e cola, pintadas à mão enchem o sorriso de quem assiste na berma da estrada ou nas varandas. O calor é maior que os corpos. Estão 34 graus em Bissau. Os turistas – maioritariamente de países europeus - assistem das varandas dos hotéis e pensões. Pagam em media 25.000 francos CFA (cerca de 38 euros) diários para ver o desfile passar.

 

Os militares escoltam e vigiam a sede do Banco Internacional da Guiné-Bissau. Os abutres também, no céu ou no topo dos prédios, à espera dos corpos suados e subnutridos. Quem não pode correr é empurrado. As cadeiras de rodas desviam-se como podem do povo em ebulição.

 

"En África bu tem ku tem udju na pe" (Em África, tens de ter olhos nos pés), reza um provérbio crioulo. Não apenas pelo perigo das cobras, também pelo das minas terrestres. Na Guiné-Bissau, ninguém sabe ao certo quantas estarão semeadas por todos o país. O mais recente relatório da organização não-governamental Human Rights Watch declara que, entre Junho de 2000 e Julho de 2004, foram "limpos" 720 mil metros quadrados de terreno, equivalentes a mais de 2500 minas antipessoais armazenadas ou destruídas. Agora, é Carnaval.